Matheus Arcaro

Discurso: formatura em filosofia

Boa noite a todos.
Geralmente, discursos de formatura são aplaudidos mais por terem chegado ao fim do que propriamente por seu conteúdo.
São odes ao lugar comum que começam com os agradecimentos, partem para os motivos da esplêndida noite da cerimônia, enaltecem os percalços e as glórias dos anos de estudo e por fim convocam os formandos a exercerem eticamente suas funções para que, com isso, possam alcançar o almejado sucesso.
Discursos desta natureza até podem surtir efeito numa formatura de Administração ou de Gestão. Afinal, quando se pergunta quais as atribuições de um administrador, todos têm em mente uma resposta minimamente plausível. Entretanto, este esquema não dá conta da Filosofia. Um diploma em filosofia não faz de ninguém filósofo. A universidade, quando muito, apresenta o índice do volumoso livro que é a Filosofia. Isto não significa que a Faculdade seja dispensável e qualquer um que tenha lido meia dúzia de obras possa ser Filósofo. Ao contrário, ressalta a importância do constante aprofundamento do aluno, norteado pelas diretrizes construídas na Instituição.
No senso comum, para alguns, filosofar é contemplar a sabedoria acima de tudo o que é mundano. Para outros, é uma espécie de exumação intelectual que revisita pensamentos. Mas basta uma pequena limpeza na lente através da qual se vislumbra o mundo e rapidamente esses clichês são dilacerados. Aos que crêem que a filosofia é um devaneio extra-mundano, apresento Platão: “Os deuses não filosofam” afirma ele em bom grego. Não filosofam porque filosofar é saber-se incompleto. O filósofo está sempre entre aquele que ignora e aquele que tudo sabe. A filosofia é um percurso sem fim do homem e para o homem. Aos que crêem que a filosofia é palavra morta, trago Heidegger para quem filosofar não é um acúmulo de informações passível de demonstração lógica. Ser filósofo é, antes de tudo, ser iniciante porque envolve uma constante retomada daquilo mesmo que inicialmente levava a pensar. É o retorno renovado à origem que nunca permanece isolada num passado desprovido de sentido. O passado sempre participa das decisões do futuro, sempre gera novas possibilidades. E Heidegger arremata: uma coisa é verificar as opiniões dos filósofos e descrevê-las. Outra coisa bem diferente é filosofar com eles.
Amigos formandos! Se, por ventura, algum de vocês iniciou o curso com o anseio de encontrar respostas para as suas inquietações, provavelmente tenha se decepcionado. Mais do que respostas, a filosofia instaura a desconfiança diante do conformismo e da acomodação a que nosso pensamento é submetido a todo tempo. Mais do que revelar verdades, a filosofia é uma abertura ao próprio existir humano, quer no plano coletivo, quer no plano individual. É nesse sentido que Nietzsche afirma que a filosofia é para aqueles que olham para o abismo sem medo da altura, porque trazem dentro de si o abismo.
Tarefa estéril tentar isolar a Filosofia nos limites de uma definição, tentar reduzir as muitas possibilidades a um único significado. Podemos, à guisa de ilustração, apontar alguns caminhos. Para Locke, a filosofia é o esforço de libertação do homem da ignorância e dos preconceitos. Para Merleau-Ponty a filosofia é um modo de re-apreender a ver o mundo. Para Marx a filosofia é um instrumento de transformação social. Para Platão, a filosofia nada mais é do que o uso do saber em proveito do homem.
Esta multiplicidade de enunciados, por si, abala o alicerce argumentativo dos que emprestam à filosofia um tom de arrogância. E, ao contrário do que possa parecer a olhos virgens, não assina seu atestado de vaguidão; só faz mostrar que ela não cabe num rótulo.
Platão nos fala sobre o uso do saber. Com isso, pontos importantes vêm à tona. Há os que se ofendem ao ouvir a gasta pergunta: “mas, para que serve a filosofia?” Para estes, perguntas dessa natureza são invalidadas pelo próprio interrogar filosófico. Por serem introduzidas de fora, não fazem sentido, são estranhas à filosofia. A filosofia não serve para nada porque nunca pode ser reduzida a um simples meio. Não serve para nada porque não é serva, é absoluta. A esse respeito, Aristóteles nos diz que como a utilidade de uma coisa se refere a algo externo, o que é útil não pode ser livre porque tem seu fim fora de si. Para Schelling, falar da utilidade da filosofia é contrário à dignidade dessa ciência, porque ela só existe em função de si mesma.
Todavia, talvez seja lícito atribuir utilidade à filosofia sob outro ponto de vista. A partir de hoje, amigos, mesmo se não formos lecionar, antes de filósofos, somos educadores em filosofia. Somos uma ponte entre a filosofia e a sociedade; temos por obrigação fazer os pensamentos pulsarem. Platão joga luz nesse ponto ao mostrar que o filósofo não se contenta apenas em contemplar a Ideia Suprema do Bem, mas precisa retornar à caverna para “libertar” os seus. Logo, como atividade de pensamento, a filosofia é, sim, uma ferramenta para grandes mudanças. E isso pode ser sentido em nosso próprio cotidiano, desde as situações mais corriqueiras até as mais relevantes. Por exemplo, na percepção das diversas camadas interpretativas de uma notícia jornalística; na desconstrução de jargões como o “cientificamente comprovado”; na crítica ao caminho trilhado pelas idéias dominantes; nos sentidos das criações artísticas e até mesmo nas possibilidades de liberdade e felicidade. É nesse sentido que Deleuze fala num pragmatismo da filosofia, bem diferente da instrumentalização que preconiza a Lei de Diretrizes e Bases ao sentenciar que a Filosofia e a Sociologia devem estar presentes nos currículos de educação média brasileira como “conteúdos necessários ao exercício da cidadania.” Com essa roupagem, é grande o risco de se cair numa educação prescritiva, adestradora, em prol de um conceito arbitrário de cidadania; uma educação reduzida a um conjunto de informações; uma educação mais perto da deformação do que da formação.
Nossa opção por estudar Filosofia é, em grande medida, incompreensível aos que se encontram submersos no utilitarismo econômico. Para estes, a universidade deve atender à demanda do mercado, deve formar homens e mulheres para o trabalho, mesmo que seja em detrimento à capacidade crítica, estética ou moral.
Este tipo de pensamento, infelizmente, vem se alastrando e até os que pareciam resistentes sucumbiram. Não por acaso, amigos, a letra Ômega, a última do alfabeto grego, nomeia a nossa sala. Somos a turma derradeira de Filosofia não só do Centro Universitário Moura Lacerda, mas de toda a Ribeirão Preto. Diferentemente de Sócrates que ao menos teve um julgamento, os cursos de Filosofia da nossa cidade foram assassinados a sangue frio sem possibilidade de defesa.
Tudo o que eu disse até aqui foi arbitrário, já que todo discurso é construído sobre o recorte teórico de quem o concebe. Paradoxalmente, tudo o que eu disse foi plural, pois um discurso nada mais é do que uma coleção de discursos. Com base nesse segundo aspecto, agradeço imensamente a todos os que se fazem ouvir pela minha voz. Aos amigos formandos Vitão, Marina, Jean, Clarisa, Patrícia, Jaqueline, Cecília, Jaélison e Lincoln, que tanto contribuíram com as discussões em sala e que aqui tenho a honra de representar. Ao nosso paraninfo, professor Amir, que além de um profundo conhecimento filosófico, guiou os “pré-amíricos” ao subterrâneo gramatical com suas eloqüentes mesóclises e uma invejável plasticidade vocabular. Ao nosso patrono, professor Tadeu, que tanto se empenhou em nos evidenciar a importância do ensino da filosofia e, mais que isso, mostrou-nos que não basta ensinar para que o aluno aprenda. Ao professor Ronaldo, dono de uma didática ímpar e um maravilhoso senso de humor. Ao professor Stefan que nos desvelou uma filosofia dionisicamente instigante. À professora Cléria, nossa coordenadora; à professora Célia, ao professor Ricardo Coimbra, ao professor Franco. Aos que não estão aqui hoje como o professor Ricardo De La Vechia, enfim, a todos os que, de alguma maneira, contribuíram para a nossa formação.
Por fim, não poderia deixar de agradecer aos nossos amigos, parentes, esposas, maridos, namorados, filhos, irmãos, pais que tanto nos ajudaram e, principalmente, suportaram as nossas conversas pseudofilosóficas.
Assim, senhoras e senhores, chega ao fim o meu discurso. Só espero que os aplausos não sejam de alívio.
Obrigado.