Matheus Arcaro

Somos livres?

O debate não é novo. Desde os primórdios da filosofia, discute-se sobre a liberdade humana; sobre as suas possibilidades.

Numa das extremidades há as correntes filosóficas que defendem a total liberdade humana. O homem é o único animal consciente da própria existência, dotado de vontade e conseqüentemente de escolhas. Sartre, por exemplo, afirma que o homem é, antes de tudo, livre. É absolutamente livre para definir-se, engajar-se, encerrar-se, esgotar a si mesmo. Ele recusa todo determinismo e mesmo qualquer forma de condicionamento. A liberdade humana revela-se na angústia. O homem angustia-se diante de sua condenação à liberdade, pois está condenado a fazer escolhas e a responsabilidade de suas escolhas é tão opressiva que, às vezes, ele procura ideologias que o isentem de tal responsabilidade.

Na outra extremidade, os que dizem não ser bem assim. Segundo os deterministas, todas as ações humanas são regidas por relações de causa-efeito. Os homens são determinados, dentre outros motivos, pelo fato de nascerem naquele local e naquela época. Além do mais, sua existência é ensejada num universo social e cultural que, de certa maneira, forma seu caráter, seus desejos, seus pensamentos, etc.

Entre uma posição e outra da discussão existem inúmeras nuances, várias combinações que não podem ser relegadas. Daí emerge uma questão da mais profunda valia: antes de discutirmos as possibilidades de liberdade, cabe sabermos o que significa essa palavra tão cara à filosofia e à própria vida.

A maioria dos dicionários contemporâneos define o termo como faculdade de escolher; independência.

Para contrapor essa definição um tanto quanto simplista, faremos uso, primeiramente, do pensamento de Spinoza.

Bento de Spinoza (1632-1677) nasceu nos Países Baixos em uma família judaico-portuguesa e é considerado o fundador do criticismo bíblico moderno. Por suas ideias, foi excomungado e tachado de maldito por muitos anos, mesmo após a sua morte.

Com seu panteísmo, ele defendia que Deus e Natureza são dois nomes para a mesma realidade, a única substância em que consiste o universo. Tudo é uma coisa só; tudo é Deus; tudo acontece necessariamente; tudo é como deve ser. Para ele, o comportamento humano é totalmente determinado. Mas nem por isso não há liberdade. Esta consiste justamente em reconhecer essa determinação e compreender por que agimos como agimos. A diferença entre o senhor e o escravo é tênue: o primeiro reconhece a necessidade dos seus atos e o segundo age sem sequer ter noção da sua limitação, inconsciente à necessidade.

Hoje, se perguntássemos às pessoas nas ruas “O que é liberdade para você?”, a grande maioria responderia que ser livre é fazer o que se quer, o que se tem vontade.

Na história da filosofia, não foram poucos os pensadores que trataram do tema. Talvez o mais influente tenha sido Immanuel Kant (1724-1804), considerado o marco inicial da filosofia contemporânea. Ele concebe a liberdade quase que diametralmente oposta à maneira de como o senso comum a define. Kant afirma que, quem faz o que quer, sem anuência da razão, é escravo.

O homem é um ser misto, composto de razão e instinto. Cada uma dessas duas “faculdades” abre uma possibilidade para o agir. Pelas inclinações instintivas, o homem age como um animal, como uma marionete, levado pelos sentidos e pelas emoções (que a primeira vista parecem oriundas do interior do homem, mas na verdade são exteriores).

Na natureza, não há liberdade de escolha, as coisas são o que devem ser. No entanto, o homem tem uma “natureza” peculiar, que não pode ser determinada por coisas exteriores: a racionalidade. E pela racionalidade, o homem atinge a moralidade, o campo onde se encontra a liberdade. Somente pela razão, há a possibilidade de um agir ético capaz de prescindir totalmente do “mundo sensível”, do impulso. A vida ética é determinada por uma lei necessária e universal, que regula a autodeterminação de cada sujeito guiado pelo imperativo categórico. O imperativo é um ato interno do homem, deliberado, que externaliza-se no ato ético. É uma auto-coerção.

Agir segundo os imperativos categóricos é agir pelo dever, incondicionalmente, sem ter em vista um fim (ao contrário do cristianismo que prega o “agirei bem senão não alcançarei o reino dos céus”). Agir por uma condição, faz do ato um mero meio, tornando-o submisso.

Ser livre, então, é ser autônomo, isto, é dar a si mesmo as regras a serem seguidas racionalmente, segundo o imperativo categórico. O ato ético é um ato de obediência a si mesmo, uma auto-imposição que nos orienta a agir segundo uma máxima universalmente válida. Somente assim, segundo Kant, pode fundar-se a verdadeira liberdade humana.

Como posto, há inúmeras possibilidades de análise para o conceito de liberdade. Isso nos leva a considerar que podemos e devemos olhar além da fumaça da nossa própria chaminé. Revisitar e reexaminar conceitos tidos como verdadeiros deve ser um exercício constante da nossa racionalidade.