Matheus Arcaro

Educação: formação ou formatação?

É senso comum: a educação é o alicerce do homem.
Mas, como uma das propostas da filosofia é questionar os paradigmas, os dogmas, ponho duas questões: será mesmo? E, se for, a escola está de fato formando cidadãos?

Para discutirmos isso precisamos analisar as teorias dos currículos escolares. O que é isso? É a escolha do que vai ser passado ao aluno. A questão central de uma teoria do currículo é determinar qual conhecimento deve ser ensinado.
Só aí já cabe uma grande reflexão: o material de ensino é sempre parte de uma seleção. Selecionar é uma operação de poder: ensinando isso e não aquilo, teremos um tipo X ou Y de ser humano.
O homem seria como uma prova de múltiplas escolhas. Livre para escolher, mas dentro de alternativas pré-determinadas.

Das teorias tradicionais de currículo, podemos destacar a de Bobbit.
Sua proposta surge em 1918, no ápice da industrialização americana.
Para ele, a escola deveria funcionar como uma fábrica, pois ambas atuam como “um processo de moldagem”. O sistema educacional deve ser capaz de especificar precisamente quais resultados pretende obter, quais os métodos para atingir esses resultados e como mensurar isso.
Os objetivos desse sistema são baseados nas habilidades necessárias para exercer com eficiência as ocupações profissionais da vida adulta.
Enfatizando o tecnicismo, sobra pouco para a criatividade.

As teorias críticas efetuaram uma inversão nos fundamentos das teorias tradicionais. Elas desconfiavam do status quo, responsabilizando-o pelas injustiças sociais.
Um grande expoente dessa linha é o Althusser, que conecta educação e ideologia. Ideologia, para ele, são as crenças que nos levam a aceitar as estruturas sociais existentes como boas e desejáveis. A disseminação dessa ideologia é feita pelos aparelhos ideológicos do estado: polícia, religião, família, mídia, e, principalmente, a escola, que atinge praticamente toda a população por um período longo de tempo.

Mas, como a escola transmite essa ideologia?

No trecho de um livro didático, fica evidente:
“Pedro adora jogar bola depois da escola. Seu pai não pode buscá-lo, pois trabalha duro para sustentar a família. Claudinha, sua irmã, vai ao balé três vezes por semana. A mãe cuida de todos. Maria limpa tudo. Ela já faz parte da família. É uma preta feliz”

Que beleza! Os filhos praticam as atividades condizentes aos seus sexos: o menino joga bola e a menina faz balé. A mulher, rainha do lar, é submissa ao homem mantenedor e se conforma com isso. E o pior: a empregada sente-se feliz pelo fato de ser tratada com dignidade por uma família de brancos, como se fosse o máximo alcançável por uma criada negra.

Para os autores Bowles e Gintis, a escola é o espelho das relações sociais do local de trabalho capitalista. Formata o aluno pelo próprio modelo de funcionamento: obediência às ordens, pontualidade, assiduidade, etc.

Para Bordieu e Passeron, a cultura da classe dominante é tomada como molde de ensino. E, para que ela se mantenha como “a cultura” é necessário que pareça não arbitrária. Ai, segundo os autores, ocorre uma dupla violência: a imposição da cultura de um lado, e a ocultação da imposição, de outro.

Outro trecho de livro didático evidencia isso:
“O operário mostra suas mãos cheias de calos: durante toda a terra tocaram a terra, os fogos, os metais. Estão cheias de riquezas, estão negras, cansadas e pesadas; Diz o senhor: Que beleza! Assim são as mãos dos santos.”

É sutil a maneira como os valores são impostos. Mas, analisando esse excerto, podemos extrair dentre outras coisas: a hierarquia senhor-escravo, o elogio às conseqüências do trabalho para a manutenção dessa hierarquia, a comparação das mãos do trabalhador a um ícone da igreja católica, etc.

Ao contrário do pensamento vigente hoje em dia, Aristóteles hierarquizava os saberes da seguinte forma: primeiro as ciências teoréticas, que cuidavam do estudo das causas primeiras. Depois as ciências comportamentais, que compreendiam a política e a ética. Por fim, as ciências produtivas, mecânicas. Por isso, afirmava o pensador, que o cidadão não podia trabalhar, pois para quem trabalhava não sobrava tempo para a reflexão, o trabalho equivalia a condenar-se a uma existência mecânica.

Aristóteles prezava o conhecimento pelo conhecimento. O fundamental para ele era cultivar a essência do homem: sua racionalidade.
Mas, no sistema no qual estamos inseridos, isso é inconcebível. Não há porque conhecer o que não me vai ser “útil”.
Isso explica a predominância do modelo tecnocrático de Bobbit até hoje.
E, talvez explique também porque os cursos de administração estão sempre lotados e os de filosofia sofrem para formar uma turma.