Matheus Arcaro

Os porões do natal

Aproxima-se o dia tão esperado por muitos. Não por mim. Pode ser ranhetice, mas eu não gosto do Natal. Não pela data em si, mas pelo que fizeram dela.
Ainda em novembro lojas e ruas já estão saturadas de enfeites. E para quê? Para que o espírito de fraternidade se espalhe entre os homens? Não, caros leitores! Para alimentar o bicho chamado Consumidor, inseminado em nós. É para esta criatura que são feitos os anúncios com fartos sorrisos e embrulhos ao redor de um pinheiro; é para este ser forjado pelo capital que as empresas colocam frases convidativas abaixo de suas logomarcas. Quer ser feliz, Dona Maria? Compre, então, esta linda lava-roupas; é para este subproduto da sociedade pós-industrial que as redes televisivas põem suas celebridades a cantar, para que acreditemos que a festa é nossa, é de quem quiser. E se o Zezinho da favela da Mangueira quiser participar? Os índices de violência aumentam!
A imagem do gordo de barba branca, que, aliás, foi popularizada pela Coca-Cola, é um dos símbolos da coisificação das relações sociais criticada por Marx. O “bom velhinho” é o instrumento entre a mercadoria-produto e a mercadoria-sujeito. Onde já se viu Natal sem presente? E não me venha com “lembrancinha”, você não me ama?
As celebrações familiares são capítulos notáveis dessa tragicomédia. Pessoas que têm pouquíssima intimidade entre si, reunidas em nome dos laços genéticos, abraçam-se com uma verdade só vista nos reality shows da TV. E mais: embora se comemore o dia do mais humilde dos homens, são evidentes os pecados capitais. A gula é incitada pela mesa farta; a ira surge com o presente ganho pelo irmão; a cunhada desperta a inveja porque acabou de turbinar os seios e o genro soberbo fala do seu carrão, fabricado (não sei como) no ano que sequer começou.
Mas não sejamos pessimistas. Afinal, o Natal é a celebração do natalício do Salvador. Nem isso se pode comemorar. Segundo historiadores, Jesus não nasceu em 25 de dezembro. Esse dia foi adotado pela Igreja para fortalecer o cristianismo, já que coincidia com a festividade romana pagã dedicada ao “nascimento do deus sol”.
O intento deste texto não é descolorir o Natal. Ao contrário. Quem sabe, ensejando reflexões dessa natureza, consigamos acender a faísca do sentido que a própria palavra Natal traz em si: nascimento! O nascimento de uma visão de mundo mais Humana.