Matheus Arcaro

Não tente ser feliz

Entre o Natal e o Carnaval assistimos a um festival de clichês bonachões: todos desejam a todos um ano repleto de realizações, com muito dinheiro no bolso, saúde para dar e vender, sucesso e... felicidade! Mesmo aqueles que mal nos conhecem querem que sejamos muito felizes. Assim, com a felicidade pululando em todo canto, caímos num processo autofágico: enfiamos na cabeça que precisamos alcançá-la a todo custo. Como obedecer às leis, ser feliz passa a ser um dever.
Mas o que é ser feliz? A resposta depende da lente pela qual se enxerga o mundo. Para Epicuro, a chave de uma vida feliz estaria na ataraxia (tranquilidade da alma) que pode ser alcançada com prazeres moderados, leitura e introspecção. A vida feliz é simples, justa e virtuosa. Assim, a ambição é o grande obstáculo para alcançar a felicidade. Anos mais tarde, Sêneca diria que o ser humano só seria feliz se renunciasse aos padrões de referência de sua sociedade. Os dois pensadores definem a vida feliz em termos praticamente antagônicos aos moldes da sociedade contemporânea. Hoje, influenciados principalmente pelo senso comum e pelo aparato midiático, nos movemos por arquétipos e projeções. Almejamos um corpo escultural, uma quantia razoável de dinheiro, carisma, uma relação amorosa perfeita, além de muitos dos produtos ou serviços que as empresas nos empurram a todo instante. Como os cães que nunca alcançam o coelho na pista de corrida, corremos a vida toda atrás de algo que acreditamos ser a felicidade. Entretanto, como as coisas não transcorrem como no capítulo derradeiro de uma telenovela, emerge a frustração.
Schopenhauer, no século XIX, alertou-nos quanto a isso. Para ele, a felicidade seria apenas uma interrupção breve do sofrimento. Quem procura a felicidade nas coisas do mundo está sempre incompleto. Ora compra uma casa ou um carro (ou trabalha a vida toda para isso), ora vai a festas ou faz viagens, ora procura a “alma gêmea” e, assim, o tempo vai passando e a felicidade nunca dá as caras. Nestes termos, a vida não passa de um pêndulo entre o sofrimento e o tédio.
Modestamente compartilho parcialmente a concepção de Schopenhauer de que a felicidade plena é um simulacro que massacra o homem. Todavia não creio que a única saída seja o total desapego ao mundo, como ele afirma. Talvez o que tenhamos que fazer, ao invés de corrermos atrás deste fantasma, seja colecionar momentos de alegria. Singelos, modestos, mas que, somados, podem emprestar alguma cor a essa coisa a que costumam chamar de vida.