Matheus Arcaro

O Processo de Franz Kafka

O autor
O mais velho dos seis filhos de um casal judeu, Franz Kafka nasceu em 1883 em Praga (atual República Tcheca). Formou-se em direito em 1906, o que, obviamente facilitou suas abordagens acerca da linguagem judicial, a burocracia, a lei e os processos, temas recorrentes em diversos romances seus. Fato que ilustra a excentricidade do autor é que ele ficou noivo duas vezes da mesma mulher, mas nunca se casou. O caráter autoritário do pai foi perturbador na vida de Franz; uma relação que beirou a insanidade, revelada no texto intitulado “carta ao pai”. Nesta carta, que conta com mais de mais de cem páginas, Kafka explicita toda a sua dor e desabafa sobre cada ato vil do pai. No ano de 1914 ele começou a escrever “O Processo”. Pouco tempo antes, duvidada que ainda escreveria algo relevante, mas assim que o livro tomou forma, observou ao amigo Max Brod: “Adquiri novamente um sentido. Minha vida regular, vazia, insensata de celibatário tem uma justificativa.” Em 1917, Kafka sofreu a primeira crise devido à tuberculose que o mataria sete anos mais tarde, aos 41 anos de idade. Em nenhuma fase da vida deixou de escrever. Certa vez afirmou a Max que tudo o que não era literatura o aborrecia. Antes de morrer, pediu ao amigo que queimasse todos os seus escritos, o que obviamente não foi feito, uma vez que a maior parte de sua obra foi publicada postumamente.

O romance
Modesto Carone, escritor, ensaísta e tradutor de várias obras de Kafka, afirma que “O processo”, um dos maiores romances do século, é um fragmento inexato. Max Brod foi quem organizou o livro que permaneceu inacabado como estava quando Kafka lhe entregou os escritos, em 1920. Após sua morte, Brod o editou pelo que julgou coerente e publicou o romance em 1925. Muito provavelmente esta organização não é exata, pois há discrepâncias na cronologia da história. Carone cita vários exemplos para sustentar esta imprecisão, dentre eles: o segundo capítulo, intitulado “Primeiro Inquérito” se desenrola dez dias após a detenção do protagonista Josef K. O capítulo quarto “A amiga da senhorita Bürstner” se passa apenas cinco dias após este incidente. A estação do ano mencionada no capítulo nono, “Na Catedral”, é outono, ao passo que no capítulo sétimo, “O advogado. O industrial. O pintor”, já é inverno. Há também muitos capítulos incompletos que poderiam entrar no romance se o próprio Kafka tivesse se ocupado da finalização do livro. Um destes capítulos, intitulado “O promotor Público”, (que consta no Apêndice da edição da Companhia das Letras) seria um prelúdio ao romance, pois apresenta a vida do protagonista antes da acusação.
Feitas as apresentações, vamos à história. Sob o viés de uma leitura referencial, ou seja, no âmbito denotativo, o romance narra um ano da vida de Josef K., um bancário que é processado sem saber o motivo. Na manhã em que completa 30 anos, Josef foi detido em seu próprio quarto por dois guardas. Toda a narrativa segue sem que se conheça quem teria denunciado Josef K. às autoridades e o motivo de estar sendo detido. Neste período são narrados todos os “absurdos” advindos deste processo. Apesar disso, o personagem central luta o tempo todo para descobrir a razão da acusação, quem o acusava e com embasamento em que lei. Mas no final, sem ânimo, ele acaba por não reagir aos senhores que o matam com uma facada no peito.
Todavia, não podemos nos contentar com esta explicação. Afinal, toda grande obra de arte suscita inúmeras interpretações. Pois bem. Do ponto de vista existencial, há quem sustente que o romance é uma alegoria: a representação da culpa do homem moderno, já que não se trata de um processo criminal numa corte de justiça convencional. Outros acreditam ser a ilustração do homem “coisificado” pela burocracia e pelo aparelho judicial. Alguns críticos, por sua vez, apoiados na detenção imotivada do protagonista, afirmam que o romance é uma espécie de profecia do terror nazista que estava por vir e, mais amplamente, uma denúncia a todos os regimes totalitários. De fato, “O processo” foi escrito durante a Primeira Guerra Mundial e, de certo modo, adiantou a angústia, a insensatez e o sentimento de absurdo que permeariam o combate. Naqueles anos começava a cair por terra um projeto de humanidade forjado no Iluminismo, um Ideal de homem livre, emancipado pela razão. Ainda sob a ótica da existência, há intérpretes que defendem a ilustração do homem alienado, controlado por um sistema doutrinador que a todo o momento lança informações que são digeridas sem uma análise profunda. Do ponto de vista psicológico, as desventuras de K., na verdade, não passariam de sonhos ou delírios de um indivíduo solipsista, isolado e desolado.
Também são possíveis inúmeras relações com pensadores da tradição filosófica. Com Marx, por exemplo, se enxergarmos Josef como a engrenagem de um mecanismo que ele mal conhece; um indivíduo alienado e “reificado” pelo sistema. Ou podemos caminhar em direção diferente se tomarmos como referência Michel Foucault e a sua “Microfísica do Poder”, já que não se sabe quem é o juiz ou quem de fato julgará Josef. Para Foucault, na lógica do medo, o poder é diluído. Podemos ainda nos apoiar em Nietzsche, mais especificamente em sua crítica ao racionalismo. Afirma ele que a razão não dá conta da vida, sendo tirânica ao tentar reduzi-la a conceitos. “Conceitos nada mais são do que metáforas que se esqueceram da sua origem”, sentencia o pensador alemão. A relação é simples: o protagonista tenta o tempo todo utilizar suas habilidades intelectuais contra o processo que, em si, nada tem de racional. Inclusive, crítica semelhante à razão, faz Arthur Schopenhauer, alguns anos antes de Nietzsche. Proponho, então, uma relação mais profunda do romance de Kafka com este pensador. Schopenhauer, em meados do século XIX, afirma que o que guia este mundo é uma força cega e irracional. Como ele sustenta tal posição? Em sua obra “O Mundo como Vontade e Representação”, o pensador estabelece duas instâncias para o Mundo: a representação e a vontade. Todos os objetos do mundo nada mais são do que representações do próprio sujeito. Tudo o que pertence ao mundo como presente, passado e futuro, existe apenas para o sujeito e, por conseguinte, o mundo é representação que se manifesta para e através da razão. (o mundo manifesto vivido por Josef K.). Mas por trás da aparência ilusória do mundo como representação, Schopenhauer diz que há o mundo em si mesmo, que ele chama de Vontade. A vontade transcende os limites da experiência e não cede às estruturas do intelecto humano. É, portanto, totalmente incognoscível. Só é possível aludir a ela por analogia, porque o sujeito percebe a vontade em seu próprio corpo. Como adiantamos, a Vontade é a essência de toda a aparência; é uma força cega e irracional que atua no fundo do ser e não cede às formas da razão. E como a essência do mundo é incognoscível, este se torna totalmente sem sentido. O destino individual não possui nenhum significado, nenhum valor; o sujeito não passa de uma marionete da vontade. Do caráter vão da existência, do mundo sem razão, Schopenhauer postula a total falta de sentido na existência. (O labirinto do qual Jose k. tenta se desvencilhar traduz isso: a razão pouco ou nada pode contra a violência irracional.) A arte teria o poder provisório de arrancar o indivíduo do seu querer imediato, enquanto servo da vontade, e elevá-lo para a contemplação desinteressada. E a tragédia é a arte por excelência, pois denuncia o caráter pecador da toda existência, a crueldade da vida irracional, e serve como estimulante catártico para a renúncia da vida. Afirma Schopenhauer: “Todas as personagens das tragédias morrem purificadas pelo sofrimento, isto é, quando a vontade de viver já esta morta nelas” Mas a saída definitiva não é pela arte, mas pela moral: o homem não encontra razões suficientes para afirmar a vida e precisa se dirigir implacavelmente à renúncia. Na ética da compaixão o sujeito reconhece que ele e o outro nada mais são do que manifestações da mesma vontade: carrasco e vítima são uma única coisa. Assim, a única possibilidade é a negação completa do querer e a busca do estado de pleno ascetismo. (K. acaba por aceitar o destino que lhe é imposto, quando espera pacientemente por seus algozes)
Em suma, o romance inicialmente poderia nos impelir a questionamentos como "que lei é essa?", "qual o crime cometido por K.?", "qual a culpa dele?". Mas no final, percebemos que estas são perguntas irrelevantes diante da irracionalidade da “Vontade”.
Em relação à forma do romance, podemos notar que a linguagem é simples. É simples porque precisa ser, já que o enredo é complexo. A frase inicial do livro elucida esta afirmação: “Alguém certamente havia caluniado Josef K. pois uma manhã ele foi detido sem ter feito mal algum.” Neste trecho não há palavras incomuns, tampouco figuras de linguagem. Mas durante todo o romance, tal fato não é nem confirmado nem negado. A lei que serve de parâmetro para medir a culpa de K é totalmente oculta. O que foi afirmado no início do romance perde a credibilidade e o leitor fica sem alternativas plausíveis. A postura racional do leitor, em princípio estimulada pelo teor naturalista do texto é incessantemente agredida por deslocamentos, sem que a coesão interna do texto seja abalada. Kafka afirmou que sua intenção com este romance era fazer o leitor se sentir “mareado em terra firme”. Conseguiu!
A obra se enquadra no que modernamente se denomina “Realismo Mágico Metafísico”. O termo “realismo mágico” foi criado nos anos 20 pelo crítico alemão Franz Roh, inicialmente com intuito de classificar as artes plásticas, principalmente a pintura de De Chirico. O alemão definiu o realismo mágico como a “amálgama de realismo e fantasia”. Na década de 50 Angel Flores lapidou a definição: “o realismo é a transformação do comum e do dia a dia no assustador e no irreal.” Não é exagero afirmar que o realismo mágico foi uma reação contra a excessiva ênfase da racionalidade transmitida pela tradição cartesiana, newtoniana, iluminista e positivista. Artistas como Picasso, Kandinsky, Dalí e Braque se descolaram do realismo e do naturalismo, recriando a realidade. Na literatura podemos destacar Proust, Joyce, Sartre, Camus, Virginia Woolf, Samuel Beckett e, claro, Kafka. Profundamente influenciados pela obra de Freud, a tônica destes artistas era liberar as forças criativas do inconsciente. Posteriormente o realismo mágico foi subdividido em “ontológico”, “antropológico” e “metafísico” que, como adiantamos, é o caso de “O processo”. Pela técnica de estranhamento, o realismo mágico metafísico induz o leitor a um senso de irrealidade, por meio do qual uma cena familiar é descrita como se ela fosse algo novo e desconhecido, mas sem lidar explicitamente com o sobrenatural. O resultado é frequentemente uma atmosfera de uma perturbadora presença impessoal. Esta impessoalidade soa paradoxal neste romance: apesar de o narrador ser em terceira pessoa e não penetrar em profundidade no âmbito psicológico de Josef, ele mantém o ponto de vista do protagonista; todos os fatos, as descrições e os juízos passam pela subjetividade de K.
Kafka, com este romance e, de maneira geral, com toda a sua obra, conseguiu traduzir o “zeitgeist” do início do século XX. Mais que isso, conseguiu transformar em arte a existência. É como se ele gritasse aos ouvidos dos homens de todos os tempos: somente com arte é possível suportar a existência, o mais absurdo dos absurdos.