Matheus Arcaro

Felicidade

Há tempos, praticamente desde o início da filosofia, a felicidade é analisada e discutida sobre várias perspectivas. O que é, como alcançá-la e a possibilidade de atingi-la, são algumas das questões inerentes ao tema.

Sócrates, cinco séculos antes de Cristo, acreditava que o propósito da vida humana era o alcance da felicidade. Esta somente seria possível mediante a um complexo processo dialético que passava pelo conhecimento, aproximando assim a felicidade da sabedoria.

Aristóteles, alguns anos mais tarde, pensava possível a felicidade, mas com muito trabalho. O meio para atingi-la seria a virtude que o homem possui naturalmente, o autoconhecimento.

Para Epicuro (341aC – 270aC), fundador do hedonismo, o prazer contínuo seria a chave de uma vida feliz, que poderia ser traduzido não por qualquer prazer (indulgência sexual, comida, bebida, bens). Ao contrário, o prazer que faz bem à alma, estaria numa vida simples, justa e virtuosa. Na moderação, na leitura e introspecção – o prazer do sábio – que tem controle de si mesmo.

A ambição seria a grande vilã da felicidade, pois, segundo Epicuro, esse sentimento de insaciedade conduziria o homem a buscar incessantemente mais do que o necessário para viver bem.

Sêneca (4aC – 65dC) dizia que o ser humano seria feliz se renunciasse aos padrões de referência de sua sociedade. “É preciso atentar para não seguir tal como ovelha o rebanho, porque, não sabendo para onde ir, vai-se para onde as outras se dirigem”.

Schopenhauer, no século XVIII, afirmava que a felicidade seria apenas uma interrupção da dor e do sofrimento constantes que as aparências geram. E, mesmo sendo fugaz, só seria possível, quando houvesse desapego e renúncia ao mundo.

Para ele, o homem “normal”, que procurava a felicidade fora dele mesmo, estaria sempre incompleto. Ora compraria casas de campo ou carros, ora daria festas ou faria viagens e os­tentaria grande luxo, justamente porque procura nas coi­sas de todo o tipo uma satisfação que é volátil.

Recentemente, A New Economic Fundation, com o objetivo de medir o grau de felicidade das pessoas, fez uma pesquisa e criou o índice Planeta Feliz.

No total, 178 países se classificaram pelos critérios: comparação entre a expectativa de vida, sentimento de alegria e quantidade de recursos naturais consumidos no país.

A surpresa: os primeiros colocados foram países latino-americanos que costumam povoar as últimas posições de qualquer lista econômica. O primeiro lugar ficou com o desconhecido Vanuatu, um arquipélago no Oceano Pacífico, que vive de pesca e agricultura. Os países mais ricos do mundo, como USA (150º) e França (129º) ocuparam as últimas posições, devido ao consumo desenfreado que destrói o ambiente e não é capaz de deixar seus cidadãos felizes.

Hoje, a felicidade, como que num processo de vulgarização, passeia gratuitamente pela boca das pessoas. Talvez, a propaganda, que tem tratado de maneira leviana um tema tão relevante, tenha contribuído para isso.

Cabe-nos, primeiro como seres humanos, a reflexão sobre nossas próprias condutas. Segundo, como profissionais da comunicação, rever a abordagem desse e de outros temas. Após séculos de pensamento, não podemos reduzir a felicidade a uma frase convidativa abaixo de uma logomarca.