Matheus Arcaro

Marx: do comunismo primitivo ao comunismo

Contemporaneamente ainda usa-se com frequência as palavras “socialismo” e “comunismo”. Muitas pessoas e, principalmente, partidos políticos denominam-se como tais. Mas, se muitos destes sequer distinguem conceitualmente esses termos, o que dirá de aplicá-los de fato.

O texto que se segue sequer pode ser considerado uma introdução. Seria pretensão e até presunção tratar de um sistema filosófico tão complexo como o marxismo nestas poucas linhas. Meu intuito aqui é, quando muito, acender no leitor a faísca da filosofia marxista para posteriores pesquisas e estudos.

Antes de tratar da filosofia de Marx, vale uma breve contextualização histórica: o século XIX é marcado por contradições. De um lado, o crescimento do movimento operário e a difusão das propostas políticas anticapitalistas (socialistas e anarquistas). Do outro, homens que se orgulhavam de seu tempo: a prosperidade, o avanço (tecnológico e cientifico) e a “vitória” da razão sobre e superstição Medieval ensejada pelo Iluminismo, fomentaram esse sentimento da onipotência humana. Tanto é assim que o final do século XIX foi, por muitos, denominado “belle epoche”.

Marx (1818-1883) e Engels (1820-1895) desenvolveram sua vasta obra intelectual nesse contexto. Mais do que refletir os problemas da modernidade, o marxismo intentava articular teoria e prática. Dizia Marx “os filósofos preocupam-se muito em compreender o mundo. É preciso transformá-lo.”

Para entendermos o marxismo temos que adentrar um pouco na filosofia de Hegel (1770-1831), cujo pensamento influenciou Marx, principalmente o conceito de dialética. Grosso modo, Hegel ambicionava uma filosofia absoluta. Concebia total identidade entre pensamento e realidade. O devir (vir-a-ser) seria o percurso da Razão; o que existe é a Razão. O movimento dialético (tese – antítese – síntese) do devir consiste na superação da etapa anterior pelas etapas mais avançadas. A própria história da humanidade é a dialética racional, um movimento de autoconstituição da Razão. Nessa perspectiva, os Estados Contemporâneos (do século XIX) seriam a realização da Razão Objetiva.

Marx inspira-se na dialética de Hegel, mas a muda consideravelmente.

Para Hegel, a consciência determina o ser social do homem. Para Marx é o contrário. Ele rejeita uma definição metafísica do homem e afirma a natureza humana constituindo-se na própria historicidade, nas relações dos seres humanos entre si e com a natureza. Marx critica a dialética de Hegel por tomar como ponto de partida a Ideia. A história da humanidade é reduzida à realização da Razão. Na dialética de Marx, o homem é o ponto de partida. Mais precisamente o homem em seu enfrentamento com a natureza pela sua sobrevivência. O homem define-se através de sua ação sobre a natureza; através do trabalho (eis um conceito caro!).

Para muitos filósofos, o que diferencia o homem dos demais seres vivos é a racionalidade. Para Marx, o trabalho é o fundamento do homem. É este que destaca o homem dos demais seres. O trabalho é a humanização da natureza.
Poderia se levantar uma objeção: mas animais como as abelhas, por exemplo, não trabalham? Marx diz que não. O trabalho humano singulariza-se pelo uso de instrumentos confeccionados pelo próprio homem e, principalmente, pela consciência do ato.

O pensador concebe uma situação original da humanidade (comunismo primitivo), na qual os seres humanos, livremente associados em comunidades, se apossam coletivamente dos meios de produção necessários à sobrevivência e, expostos à superioridade da natureza, elaboram o modo de produção comunitário. Com o desenvolvimento das forças produtivas, da divisão do trabalho e, principalmente, com o surgimento da propriedade privada, o trabalho aliena-se (estranha-se). A alienação consiste na perda de identidade entre o trabalhador e o produto de seu trabalho; na separação entre concepção e execução do trabalho. Eis a mortificação da essência do trabalhador; a negação da sua humanidade.
Pela alienação do trabalho, vem também a alienação moral, artística, cultural e política.

A sociedade é dividida em classes sociais (proprietários e não proprietários dos meios de produção). O homem estranha-se em relação a si mesmo e em relação ao outro ser humano.

A classe social dominante detém o controle dos meios de produção material e, por conseguinte, também controla a circulação de idéias e as decisões políticas. A explicação do mundo é feita a partir do ponto de vista dessa classe, que tende a apresentar como universais suas ideias. Eis mais um conceito caro: ideologia. Ao contrário do senso comum, que define ideologia como conjunto de ideias, Marx a ressignifica. Em seu sistema, ideologia é uma falsa consciência da realidade, ou seja, uma representação idealizada do real.

O Estado é concebido como um instrumento de domínio. A Instituição política realiza a vontade da classe dominante, mas não necessariamente como uma trama ou conspiração. Um exemplo claro podemos resgatar na Idade Média: a visão teocêntrica era a Realidade, a lente através da qual todos enxergavam o mundo. A divisão social era tripartite, como o corpo de Cristo e a Santíssima Trindade. O clero era responsável pela oração, a nobreza pela proteção bélica e os camponeses pelo sustento material. Essa foi a visão de mundo por muitos séculos, compartilhada inclusive pelos camponeses.

O movimento dialético na luta de classes assim se configura: a classe dominante sendo a tese e a classe dominada sendo a antítese. A síntese é a transformação revolucionária, ou seja, a passagem de um modo de produção a outro. Novamente um exemplo da Idade Média, mais precisamente a passagem do feudalismo ao capitalismo: no modo de produção feudal, há o domínio de uma classe de proprietários (nobreza e clero) sobre os camponeses em condição de servidão. A ideologia predominante é a católica e o poder político é exercido localmente pelos senhores dos feudos. Com a elevação da força produtiva (revolução agrícola, renascimento comercial e urbano) surge a burguesia (habitantes dos burgos) e as relações mercantis. Desenvolve-se a consciência de classe burguesa e esta mobiliza a plebe para o enfrentamento da nobreza e do clero. Dá-se a Revolução Francesa e a Revolução Industrial e, com isso, o feudalismo é superado pelo capitalismo.

Marx vê no capitalismo o ápice da alienação, pois a separação entre os trabalhadores e os meios de produção é gritante; o ser humano é reduzido a um animal de trabalho; a coisificação das relações sociais torna-se latente. Nesse contexto, tende-se a um descompasso entre as relações sociais e os aspectos políticos da sociedade. O conflito de classes começa a adquirir contornos mais explícitos e suscita a Revolução Proletária, a superação do capitalismo e a emancipação da humanidade.

O modo de produção socialista (que se baseia na propriedade estatal dos meios de produção e na ditadura do proletariado) prepara o terreno para o desfecho da dialética da humanidade, ou melhor, a síntese do processo: o comunismo. Suprime-se a divisão social em classes e supera-se a existência alienada. Estabelece-se a consciência autêntica da realidade, das relações sociais, culturais e políticas. Desaparece o Estado.

Marx deixou um grande legado. E, entre os herdeiros de sua teoria, as interpretações são, por vezes, divergentes. Há, de um lado, os ortodoxos que preservam as teses centrais. Já os heterodoxos inspiram-se em alguns conceitos do materialismo dialético, ressignificando- os em novas perspectivas. No século XX, tivemos algumas tentativas de implementação do sistema socialista. Lênin, em 1917, liderou a revolução Russa que culminou no socialismo real (que perdurou até o final da URSS em 1991). Mas este, nem de longe cumpriu os preceitos da teoria marxista. Daí, podemos extrair algumas hipóteses: ou o marxismo é inaplicável na prática, ou sua teoria foi distorcida, ou as duas coisas.

Fato é que Razão enfraqueceu-se. A desigualdade preponderou durante o século XX. As duas guerras mundiais soterraram os preceitos do Iluminismo. A questão “Por que não se cumpriu a expectativa iluminista de emancipação da humanidade?” ainda atormenta alguns teóricos. De qualquer maneira, é de se apreciar o sistema filosófico de Karl Marx (sob o ponto de vista estético), bem como sua pertinência, coesão e coerência.