Matheus Arcaro

SP Review

Humanidade e poesia em histórias comuns

 

Por Ronaldo Cagiano, publicada no portal SP Review

 

Muito se fala na ousadia, na versatilidade ou mesmo na subversão e outras práxis vanguardistas com que muitos autores contemporâneos vêm se destacando, seja no Brasil ou no exterior, como se da literatura a qualidade fosse aferida tão-somente pelos arroubos formais e outros recursos impactantes. No entanto, uma verdadeira literatura impõe antes pela linguagem e pela narrativa, do que por quaisquer artifícios de sedução, seja na prosa ou na poesia.

Escrever é, acima de tudo, saber contar uma história, ainda que abordando o corriqueiro e o banal da vida quotidiana, porém  sem contorcionismos, mas com a necessária sutileza com que um autor tematiza situações e ocorrências, muitas vezes pela possibilidade de voltar a temas recorrentes, sem requentá-los, mas com novos olhares ou miradas críticas.

Dentro dessa perspectiva situo o livro Violeta velha e outras flores (Ed. Patuá), de Matheus Arcaro, jovem escritor de Ribeirão Preto, que estreia com um volume de 22 narrativas (algumas premiadas em concursos), que atesta a maturidade, o talento e a pluralidade de sua oficina ficcional.

A epígrafe nietszchiana que abre o livro (“A vida só se justifica como fenômeno estético”) sinaliza o sentimento do mundo que acompanha o autor, ao realizar uma leitura existencial a partir dos pequenos dramas, acontecimentos e dilemas humanos.

Entremeando suas histórias, a sutileza da linguagem se revela também por um cristalino vocabulário e pela intensidade poética com que descreve as re(l)ações e  aborda a psicologia de seus personagens, que, muitas vezes protagonizam situações-limite. É o caso do conto que dá título à obra, em que o exercício estilístico se destaca e suaviza a trama, além do que, noutros textos, seu percurso polifônico vai se revelando sem camuflagens, assim como um trânsito rítmico e melódico pelas imagens e sentidos, capturados a partir de uma mirada sutil sobre a realidade que o circunda.

Esse volume de contos – e nunca é demais repetir o extremo rigor artístico e editorial das publicações da editora Patuá – harmoniza forma e conteúdo, sobressaindo construções de rara projeção metafórica e profundo sentido semântico, colocando o autor na linha de frente da prosa poética, algo raro entre os escritores contemporâneos.

A prosa de Arcaro se enriquece também pelo bem dosado tom reflexivo, pela pulsão filosófica e pelo diálogo –é rara entre os jovens escritores essa ponte com outras realidades estéticas – com outras linguagens e autores, o que consolida seu trabalho como fruto não apenas de sua habilidade criativa e fabulatória, ma também pelo seu histórico de leituras, sua alusão a autores de variado matiz (como em “A fúria e o som”).

Eis uma permanente e salutar interseção com outras atmosferas culturais, pela intensa expressão de uma palavra que bebeu noutras fontes e busca sempre  uma simbiose entre o clássico e o contemporâneo, entre a  erudição e as formas populares de construção do discurso literário.

São textos de potência comunicativa, com um alto nível de sofisticação, mas sem exacerbações ou falso verniz intelectual. Uma prosa permeada pela delicadeza de uma viagem íntima aos universos do tempo, da memória, das relações domésticas, e do dia-a-dia, com seus paradoxos e possibilidades.

Enfim, sondando em suas raízes afetivas, históricas e geográficas, o autor realiza uma cartografia do que é realmente essencial e profundo nos escaninhos da vida individual e coletiva, capturando dos episódios do mundo sua parcela de espanto e também seus laços realismo e humanidade.

Estamos diante de uma nova e pujante voz, um autor para se prestar atenção, pois em meio ao cipoal de contradições que marcam a literatura brasileira contemporânea, tão afetada pelo incensamento à mediocridade e ao lixo literário que  viceja por aí, sua obra se peculiariza por uma rara qualidade artesanal. Como assegura Menalton Braff na apresentação, “Matheus Arcaro nasce adulto.”

 

Violeta velha e outras flores, de Matheus Arcaro (editora Patuá, 168 págs.)

 

Avaliação: Bom



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