Matheus Arcaro

JORNAL DO SUDOESTE

“Violeta Velha e Outras Flores” é o título do livro de Matheus Arcaro, lançado em 2014, pela Editora Patuá, São Paulo. São vinte e dois contos, agrupados em seis subtítulos, com o Prólogo de Me-nalton Braff e texto na contra-capa, de Paulo Bentacur.

Na apresentação da obra, os dois escritores famosos afirmam que Matheus Arcaro é um autor que nasce adulto, maduro. As afirmações tornam-se mais interessantes porque Matheus é jovem. Nasceu em Ribeirão Preto, em 1984. Ao findar a leitura minuciosa do livro, o leitor fascinado pergunta-se curioso, como alguém tão jovem pode ser um autor tão culto e complexo. Talvez sua formação explique em parte.

Matheus Arcaro é graduado em Comunicação Social e também em Filosofia. Pós-graduado em História da Arte. Atua como diretor de criação publicitária e de Filosofia e Sociologia. Cronista, contista e poeta, nas horas vagas atua ainda como artista plástico.

Menalton Braff salienta no Prefácio que no emprego da linguagem do nosso autor, há uma “preocupação constante com a incorporação de recursos poéticos no discurso com que são construídos os contos. Ritmo, sonoridade e figuras de linguagem de grande poder sugestivo”,

Realmente, na linguagem dos contos de Matheus Arcaro, as figuras de linguagem são uma constante. Exemplo dessa assertiva é a personificação: seres inanimados adjetivados com características humanas. Há um número sem fim: “o perfume das rugas”, “cortina loura”, “voz adormecida”, “pernas zonzas”, “palavras sedosas”, “olhos moribundos”, “discurso lívido”, “olhos ruivos”; há ainda metáforas inusitadas e comparações criativas.

Em todas as obras de grandes escritores nota-se quais autores o inspiraram. Assim, em MA sente-se sua predileção  por Virginia Woolf, James Joyce e Samuel Bec-kett. O convívio com esses grandes autores enriquece sua literatura, são pistas seguras para que o leitor descubra detalhes preciosos das complexas tramas dos contos de Matheus. Aliás, nosso autor não tenta ocultar essa influência e, inclusive, um dos seus contos traz o título A Fúria sem Som, uma alusão explícita a uma obra de Faulkner e é calcado no poema Negra Fulô, de Jorge de Lima. Essas influências que se detectam em um autor não o desvalorizam; ao contrário, são uma espécie de currículo da sua formação literária, de sua cultura e de sua sensibilidade, como se fora a terra fértil onde seu talento floresceu.

Nessa obra de MA, além da riquíssima linguagem, cite-se ainda a complexidade das tramas, as experiências da violentação gramatical e da narrativa, nos contos  Maquinando, pg. 041 e Sentido, pg. 072; há até um flerte com o miniconto, na página 033. Mas algo digno de menção é que todos os textos são atraentes, densos e profundos.

Rotular, modernamente, um autor, por Escola Literária , é uma temeridade, uma falácia. Pode-se falar, em Literatura, no mínimo em Tendências Literárias. É fácil comprovar, por exemplo, a predileção de Matheus Arcaro pela filosofia do Existencialismo. Nas tramas de quase todos os contos há repetidas tragédias, sofridas histórias de personagens, em ciladas, verdadeiras armadilhas do destino, contra as quais as personagens nada podem; surge um sentimento de angústia que revela a fragilidade humana e a impossível defesa.

As ricas citações em epí-grafes, de autores como Clarice Lispector, Franz Kafka e Albert Camus comprovam a seriedade, a predileção literária e a visão de mundo da obra literária de MA.

Poder-se-ia fazer uma análise mais profunda dos contos de Matheus Arcaro e falar ainda de sua predileção por finais abertos e a ousadia do Realismo Fantástico. Contudo, esta é uma abordagem pela rama, que pede um futuro aprofundamento.

 

(*) Ely Vieitez Lisboa é escritora.



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